Korchnoi,Viktor – Segal,Alexandru [D60]
São Paulo, 1979
[Mauro de Souza]


Eu e o mestre internacional Alexandru Sorin Segal, falecido em 2015, éramos muito amigos, quase inseparáveis principalmente nos últimos anos de sua vida. Lembro que lá pelo ano de 2010 saíamos para jantar após as competições no clube, juntamente com amigos como o Marcelo Carpinetti, Edmundo Aoyama, Otávio Assad, Abílio Godoy, Tony Monti, Emílio Ishikawa e outros. Nesses encontros, Segal adorava contar causos do tempo na Romênia, seu país natal. A história da partida a seguir, jogada na sede do Clube de Xadrez São Paulo em 1979, era uma de suas preferidas. Para ele, pouco importava tratar-se de uma derrota (ele era uma pessoa sábia demais para olhar para o xadrez apenas pela ótica da vaidade). O que importava mesmo era a diversão do enredo da partida.

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1.c4 e6 2.Nc3 d5 3.d4 Nf6 4.Nf3 c6 5.Bg5 Be7 6.e3 Nbd7 7.Bd3 [normalmente, se joga aqui 7.Rc1 esperando a captura do peão em c4 para mover o bispo, ao invés de movê-lo duas vezes.] 7…0-0 8.0-0 dxc4 9.Bxc4 Nd5 este plano constitui a famosa “manobra de simplificação de Capablanca”. Hoje em dia, essa linha é muito rara, pois as Brancas conseguem quase sempre uma pequena vantagem sem fazer muito esforço. Além disso, as perspectivas de contrajogo das Negras são escassas. No entanto, o mestre Segal gostava desses esquemas antigos, pois não curtia muito estudar aberturas “de ponta”. Para ele, defender posições ligeiramente inferiores não era um problema.

10.Bxe7 Qxe7 11.e4 Nxc3 12.bxc3 b6 [12…e5 13.Re1 exd4 14.cxd4 Nb6 15.Bb3 Bg4 16.h3 Bxf3 17.Qxf3 Rad8 18.Qc3 Rd6 19.a4 1-0 Korchnoi-Koralov / Bucareste 1966.] 13.Re1 Bb7 as Brancas conseguiram um centro forte e um desenvolvimento perfeito. Já as Negras têm uma posição sem fraquezas. Tudo muito típico dessa variante. 14.Bd3 Rfd8 15.Re3!? Korchnoi era cheio de ideias originais. [15.a4 , com a ideia de a5, é o plano padrão, livrando-se do peão isolado.]

15…Nf8 16.c4 c5 17.d5 Qc7 18.Qb3= Rac8 19.Rae1 Re8 20.Bc2! com a ideia de jogar Ba4. 20…Rcd8 21.Qb2 Bc8 [melhor seria 21…Ng6 22.Ba4 Rf8] 22.Rd1! ameaçando e5 e, portanto, forçando a jogada das Negras. 22…e5 [22…Ng6 23.e5 exd5 24.cxd5 Bg4 25.d6 Qd7 26.Be4+/=] 23.Nh4 g6 24.g3 Re7 25.Ba4 impedindo a dobra das torres. 25…Qd6 26.f4! as Negras começam a ficar sufocadas e sem planos. 26…f6 [26…exf4? 27.e5 Qb8 28.gxf4+/- com domínio total.] 27.Rf1 Bd7 28.Bc2 declinando a troca de peças, mantendo a posição restringida das Negras. 28…Bh3 29.Rf2 Rde8

30.Qc3 Nd7? [melhor seria 30…exf4 31.gxf4 Bc8 mesmo que a posição das Brancas ainda permanecesse superior.] 31.g4! um lance tático que força o ganho da qualidade. 31…Bxg4 32.Rg3! para onde vai o bispo? 32…Bh5 33.Nf5 Qb8 34.Nxe7+ Rxe7 35.f5 o ataque se desenrola naturalmente. Aqui a vantagem das Brancas já é decisiva. 35…Rg7 36.Rfg2 g5 37.h4 h6 38.Rh2 Bf7 39.hxg5 hxg5 40.Ba4 Nf8 41.Rgh3

korchnoi-x-segal-sao-paulo-1979-41

aqui, de acordo com as regras da época que estipulavam o adiamento da partida por volta do 40º lance, Segal selou seu lance secreto (Be8), que seria revelado após a volta da partida.
Justamente esse momento foi o cenário de uma das divertidas histórias que o mestre Segal adorava contar. Sabendo que Korchnoi “o terrível” havia convidado uma sócia do clube para jantar no intervalo de adiamento da partida, nosso mestre Segal incumbiu a amiga a “amaciar” seu adversário fazendo-o consumir umas boas doses de vinho no restaurante enquanto jantavam, com a ideia de aumentar suas chances de fazer frente ao poderoso adversário. Enquanto isso, com a ajuda de seus amigos do clube, Segal passou horas analisando a posição e, de acordo com ele, o grupo havia encontrado uma linha de empate que “salvaria a posição”.

Eu me lembro que, toda a vez que Segal contava essa história, eu dizia (em tom de brincadeira, é lógico) que nosso amigo havia aprendido essa artimanha num curso de especialização na Securitate (polícia secreta do regime comunista da Romênia) antes de chegar no Brasil. Voltando do intervalo, Segal foi perguntar à sua “agente secreta” como havia sido o jantar. Ela lhe respondeu: “Olha, ele tomou duas garrafas de vinho e comeu para alimentar um batalhão inteiro!”. Contente, Segal dizia que já via ali chances claras de manter a posição. Porém…

41…Be8 jogado por Segal após a volta da partida, foi respondido após apenas 2 minutos com 42.Bxe8 42…Qxe8 43.Rh8+ (jogado também muito rápido) e após 43…Kf7 Segal conta que o russo pensou por 40 minutos, calculando um ganho claro com 44.Qd3! (as Brancas ameaçam avançar o peão, liberando no caminho a casa d5 para a entrada da dama). O jogo seguiu com 45.d6 Qc6 e, apesar de amaciado por muito vinho e comida, Korchnoi não teve dificuldade alguma para acabar com a partida com 46.Rxf8+! 1-0

[a sequência seria 46.Rxf8+ Kxf8 47.Rh8+ Rg8 (47…Kf7 48.d7 Rg8 49.d8Q Rxd8 50.Qxd8) 48.Rxg8+ Kxg8 49.d7+-]

A verdade é que, após a perda da qualidade, a posição das Negras já era insustentável. Um peão pode compensar uma qualidade em muitas posições, mas não na da partida. A presença do peão passado em d5, torres dobradas na cara do rei e uma dama pronta para entrar “rasgando” são fatores decisivos que independem da quantidade de vinho que o adversário tenha bebido…

O mestre Alexandru Segal, enxadrista brasileiro nascido na Romênia durante o regime soviético, foi um dos grandes jogadores a fazer parte do quadro de sócios do Clube de Xadrez São Paulo, amigo e querido por muitos que passaram pelo clube ao longo de mais de trinta anos de convivência. Ao reproduzir aqui essa “famosa” história, analisando também a partida, espero ter prestado uma singela e merecida homenagem a esse grande amigo.

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