Bronstein,David I – Botvinnik,Mikhail [C36]
URS-ch20 Moscou, 1952
[Mauro de Souza]


Nos anos 1950, os jogadores soviéticos dominavam completamente o xadrez mundial. Esse domínio era representando principalmente pelo russo Mikhail Botvinnik, campeão mundial em 1948 e considerado um dos nomes mais estimados pelo Kremlin.
Esse domínio era tão evidente que não foi supresa para ninguém que o desafiante ao título no campeonato de 1951 foi outro soviético, o ucraniano David Bronstein, ele mesmo um nome forte entre seus pares.
Apesar de sua inegável força, Botvinnik não conseguiu se adaptar bem ao estilo agressivo de Bronstein, chegando à última partida atrás no placar. Nesse momento, quando todos já esperavam um novo campeão do mundo, aconteceu o insperado: Bronstein fez uma partida “equivocada” e acabou perdendo, o que permitiu a Botvinnik igualar o placar e, pelas regras da época, manter seu título.
O problema é que, até hoje ainda pairam dúvidas do motivo do “equívoco” de Bronstein. Ele próprio, anos mais tarde, ainda mantinha a história de que havia simplesmente jogado mal e perdido. Mas, as “vozes dos corredores” contam uma outra verdade sobre a tal partida. Ainda hoje em dia, muita gente acha que Bronstein, sentindo a pressão do Kremlin sobre suas costas (teria Stalin em pessoa ligado para ele?) , foi forçado a perder para que Botvinnik continuasse sendo o garoto propaganda ideal da hegemonia da União Soviética nesse esporte.

A partida a seguir é o primeiro encontro entre esses gigantes da história do xadrez após o polêmico encontro de 1951.

————————

1.e4 e5 2.f4 um jogador tático refinado, Bronstein usava o Gambito do rei com frequência em suas partidas. 2…exf4 3.Nf3 d5! do ponto de vista psicológico, esta é a melhor escolha, pois essa linha leva a posições com planos mais claros, que era justamente o forte de Botvinnik. [a linha principal com 3…g5 4.h4 (4.Bc4 g4 5.0-0!?) 4…g4 5.Ne5 acabaria mais favorecendo o estilo do adversário.] 4.exd5 Nf6 5.Bb5+ [hoje em dia, segue-se com 5.Bc4! Nxd5 6.0-0 Be7 7.Bxd5! Qxd5 8.Nc3 Qd8 9.d4 0-0 10.Bxf4 Bf5 11.Qe2 e as Brancas estão um pouco melhores, o que mostra que essas aberturas “antigas” ainda podem ser utilizadas com segurança para surpreender o adversário. 1-0 Carlsen-Wang / Medias 2010.] 5…c6 6.dxc6 bxc6

7.Bc4 Nd5! segundo Botvinnik, esta jogada já havia sido testada numa partida de treino contra seu sparring Ragozin. 8.d4 Bd6 9.0-0 0-0 10.Nc3 Nxc3 11.bxc3 Bg4 12.Qd3 Nd7= encerrada a fase de abertura, as Negras possuem uma posição confortável. 13.g3 Nb6! [13…fxg3? 14.Ng5 gxh2+ 15.Kh1 g6 16.Rxf7 Kh8 17.Rxh7#] 14.Bb3?! [14.Bxf4! Bxf4 15.gxf4 Nxc4 16.Qxc4 Qd5 17.Qxd5 cxd5 18.Ne5 Bf5=] 14…c5 15.c4? uma jogada tenebrosa. As Brancas enfraquecem casas centrais importantes e deixam o bispo fora de jogo. 15…Qf6

bronstein-x-botvinnik-moscou-1952-15

16.Ne5 Bxe5 17.dxe5 [17.gxf4 Bxd4+] 17…Qxe5 aqui, meu Fritz indica uma clara vantagem para as Negras. 18.Bxf4 Qh5 19.Rfe1 Rfe8 20.a4 Be2 21.Qc3 Nd7!? com a ideia de Nf6-g4/e4 22.a5 Nf6 23.Ba4 Re6 24.Kg2? apenas acelera a derrota. Qual o sentido de se colocar o rei numa casa de mesma cor do bispo das Negras? 24…Ne4 25.Qa3 g5! 0-1

[25…g5 26.Bc1 Rf6! 27.Qe3 Bf3+ 28.Kg1 Qxh2+! 29.Kxh2 Rh6+ 30.Kg1 Rh1#]

No seu famoso livro “200 Partida abertas”, Bronstein fez uma autocrítica com relação à escolha do Gambito do Rei. Era inútil querer empreender disputas teóricas com Botvinnik, pois ele estava sempre um passo adiante de seus rivais da época nesse quesito. Provavelmente, o jogador ucraniano se sentiu desanimado com o fato das Negras terem igualado a partida sem dificuldade e não conseguiu acertar um plano bom no meio-jogo.

Anúncios